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Humberto Karam: um dos mais experientes armeiros em atividade no país

O trabalho daquele que é, sem dúvida, o mais famoso armeiro do país.

Por Hélio Barreiros Júnior*

Antes de dizermos de Humberto Karam temos que abordar um pouco sobre essa fascinante profissão de armeiro. Não temos no Brasil escolas que formem esse profissional. São portanto, todos autodidatas! Existem alguns cursos que podem compor o conhecimento de um armento, mas sozinhos não capacitam um profissional. As nossas fábricas de armas, por exemplo, vez por outra dedicam-se a ministrar pequenos cursos destinados a capacitar pessoas que serão, dentro de empresas ou instituições públicas, responsáveis pela manutenção dos armamentos de suas marcas.

Isso costuma se restringir a ensinar como identificar um problema de funcionamento, normalmente de ordem superficial e, a seguir, substituir uma peça quebrada ou defeituosa, por outra original de fábrica. Ora, isso é muito bom, mas quem participa de um treinamento desses, qualifica-se apenas para manutenção deste ou aquele modelo de arma. Armeiro é outra coisa. Um armeiro de verdade tem que trazes em sua formação conhecimentos tão completos que lhe permitam até, se houver ferramental disponível, produzir uma arma inteira, à partir de desenhos de referência. Desde que, é claro, não estejamos falando dessas armas "de plástico" que invadiram nossas vidas nos últimos anos.

Um armeiro tem que saber operar com maestria máquinas como torno e fresa. Tem que conhecer os aços e os tratamentos térmicos necessários a cada tipo de peça de uma arma. Tem que saber química o suficiente para dominar os métodos de acabamento superficial como, por exemplo a oxidação, a fosfatização e a niquelação.

Para tal tem também que saber tudo sobre polimento de metais. Quer mais? Pois bem, tem que conhecer madeiras, saber trabalhar com elas e dar-lhes acabamento, que proteja das intempéries as coronhas das espingardas e fuzil e, ainda por cima, revele a beleza dos veios de uma madeira nobre. Arremata-se um bom armeiro com uma outra faceta, raramente presente no portfólio dos profissionais brasileiros, que é o conhecimento histórico.

Armas valiosas por sua antiguidade, que apresentem algum problema, não devem apenas ser consertadas, mas merecem ser restauradas, ou seja, ter restituídas duas características originais.

Não se pode, num exemplo absurdo, cromar ou niquelar uma arma que foi produzida numa época em que esses processos não eram ainda conhecidos. É, não é nada fácil, justamente por isso é que são caros, raros e muito prezados em suas comunidades, os bons armeiros.

Humberto Karam

O leitor que nos acompanha há mais tempo, certamente lembra-se das inúmeras vezes que citei o armeiro paulistano João Elias Wahbe. O pessoal da redação estranhou não começarmos por ele esta série, já que ele está aqui pertinho de nós. João certamente terá sua matéria, com todas as estrelinhas de mérito que lhe cabem, pois é de fato um profissional excepcional e sua fama há muito extrapolou nossa cidade e nosso estado. Começaremos, no entanto, por Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, justamente porque a fama de um armeiro daquela cidade já chegava a nós quando meu amigo João ainda estava no grupo escolar! Humberto Blois Taye Karam é gaúcho de Bagé, seu sobrenome denota a origem árabe, natural berço de grandes armeiros.

Casado com Beta, que é também sua diretora administrativa e, pasmem, a que se encarrega de todas as operações de acabamento superficial das armas que são trabalhadas na oficina! Nascimento em uma família dedicda ao comércio de materiais de construção em sua cidade natal, Karam deu seus primeiros passos no mundo das armas como esportista, no Clube de Tiro e Caça de Bagé, onde iniciou-se em 1967, na prática do Tiro ao Alvo.

Como muitos de nós, que identificamos a necessidade de reparar ou modificar as armas que utilizamos, Karam foi além, e passou ele mesmo a fazer isso, p0ara si próprio e para os colegas de esporte. Isso foi o embrião que terminou por levá-lo, em 1973, à capital do estado, Porto Alegre, onde está até hoje. Na busca de aperfeiçoamento Karam já se envolveu em todas as fases da constituição de uma arma. Passou, inclusive, por um breve estágio na Itália, na fábrica Beretta, na busca de habilidades necessárias a um gravador em aço, que lhe deu o germe necessário a que desenvolvesse as belíssimas gravações que ornamentam as armas de alguns de seus clientes.

Sua oficina, ocupando todo um belo sobrado, está equipada com tudo o que é necessário a um armeiro. Máquinas operatrizes, banhos químicos e eletrostáticos, além de todo um pequeno setor para o poeirento trabalho em madeira. Karam já ultrapassou há muito aquele ponto, na carreira de todo profissional, em que ele passa a dedicar-se apenas àquilo que faz melhor. Pelo que pude ver nas duas visitas que lhe fiz este ano, karam é um mestre com destacada habilidade em trazer de volta "à vida" luxuosas armas de caça que por um motivo ou outro tiveram sérios problemas mecânicos ou foram reparadas de forma incorreta por algum incapacitado, que se disse armeiro.

Ele tem a paciência e habilidade, de refazer cada parafuso, cada gravação e, muitas vezes, além da parte mecânica, toda uma coronha, além é claro, do acabamento adequado, tanto ao aço quanto à madeira. Não ele não repare uma moderna Browning Buckmark que perdeu o ejetor, ou que não refaça o belo niquelado do S&W Hand Ejector do avô de algum cliente, o problema é que essas são tarefas simples, mas que vão tomar o tempo de um profissional com uma qualificação muito acima do necessário. O resultado é que a conta vai acabar saindo alta. É como se você pedisse ao encarregado de montagem da Rolls Royce para trocar o farol do seu Voyage.

Já que enveredei por essa perigosa seara, vamos lá. Karam, num primeiro contato, é um homem de poucas brincadeiras, quase sisudo. Com o desenrolar da conversa, acaba por mostrar-se alguém bastante agradável, um bom papo que não se nega a contar suas experiências na fascinante atividade que exerce. Não consegui, no entanto, mesmo depois de vencida a barreira da formalidade, arrancar dele informações precisas sobre o que todo mundo quer saber, preços e prazos. De preços nem falamos e de prazos, ele me fez entender, que demora mais por conseguir agenda, o dia disponível para inicial um projeto trabalhoso, que lhe obrigará a trabalhar exclusivamente sobre ele, do que para efetivamente executá-lo.

Quero crer que para serviços menores, pequenos reparos, como refazer um parafuso, uma peça de mira ou algo assim, que são coisas simples, mas que se precisa de forma relativamente expedita, Karam fará um orçamento e realizará o serviço num tempo relativamente curto, algo entre uma e quatro semanas. Já se o que se tem em mãos, é uma complexa e completa restauração, ou mesmo a construção de uma arma partindo apenas de uma ação mecânica pré-existente, aí meu caro, negocie com o artista e tenha paciência, pois reza a lenda que pode ser que o tempo passe de um ano e o preço, sabe Deus! De toda forma, o que digo de preços e prazos são, repito, palavras minhas, já as imagens que lhes trazemos de um fuzil construído ao redor de uma ação Mauser 1898, são o espelho da realidade, falam por si. Saudações Karam.

(*) Matéria publicada na Revista Magnum - Edição nº 114
Humberto Karam
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